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OPERAÇÃO NO RIO DE JANEIRO – UMA ANÁLISE ESTRATÉGICA, TÁTICA E POLÍTICA - Por GM Ribeiro

  • Foto do escritor: Joao Fotografo Casamento
    Joao Fotografo Casamento
  • 5 de nov.
  • 4 min de leitura
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1. O Lado Estratégico – A Arquitetura da Operação

Do ponto de vista estratégico, a operação policial realizada no Rio de Janeiro foi exemplar em diversos aspectos. Mobilizar 2.500 operadores de segurança, integrando forças distintas e designando funções específicas para cada grupo, é uma tarefa de altíssima complexidade. Exige comando, controle e comunicação (C³) perfeitamente alinhados, além de logística precisa.

A estruturação do efetivo respeitou a doutrina de especialidades, posicionando cada equipe em áreas compatíveis com sua competência operacional — o que demonstra um planejamento tático-estratégico de alto nível. A adequação do material bélico, do transporte e dos meios de comunicação também foi pensada conforme o teatro de operações, evidenciando uma operação de caráter profissional e meticulosamente planejado.

Entretanto, é lamentável que o Governo Federal não tenha autorizado o apoio logístico solicitado anteriormente, especialmente o uso dos blindados de esteira da Marinha, que teriam sido fundamentais para a progressão segura da tropa. A ausência desses veículos atrasou avanços, aumentou o desgaste das equipes e comprometeu parte da manobra. Ainda assim, o comando operacional demonstrou capacidade de adaptação, mantendo o foco na missão e ajustando o plano conforme o cenário real.

A decisão de concentrar o confronto na região da Serra da Misericórdia foi taticamente correta. Essa postura estratégica evitou um combate em área densamente habitada, reduzindo o risco de danos colaterais e preservando a integridade da população civil — mesmo que isso tenha exigido maior exposição da tropa. É uma decisão técnica e ética, digna de reconhecimento.

Outro ponto de destaque foi o emprego do APH Tático (Atendimento Pré-Hospitalar em Combate). Ver operadores aplicando corretamente protocolos de APH sob fogo demonstra maturidade operacional e domínio de doutrina. Uma disciplina muitas vezes vista como secundária, mas que hoje salva vidas — e provou seu valor no terreno.


2. O Campo Tático – Técnica, Treinamento e Coragem

No plano tático, ficou mais uma vez evidenciado que a tropa treinada é a tropa que sobrevive e vence. Os resultados operacionais foram expressivos: 117 criminosos neutralizados, 123 fuzis apreendidos e mais de 80 prisões efetivadas.

Esses números não são apenas estatísticas — representam o resultado direto de treinamentos contínuos, doutrina aplicada e integração entre forças especializadas. O preparo faz toda a diferença no combate real.

Infelizmente, tivemos a perda de quatro operacionais — heróis que tombaram cumprindo a missão. Suas mortes não foram consequência de falhas táticas, mas do alto risco intrínseco de uma operação dessa magnitude, em um terreno hostil, dominado por criminosos fortemente armados e estrategicamente posicionados.

A mensagem é clara: não existe evolução sem treinamento, não há vitória sem preparo. O desempenho das forças envolvidas reafirma o valor do investimento em capacitação constante — algo que precisa ser entendido e aplicado em todos os níveis da segurança pública nacional.


3. O Desfecho – Política, Ignorância e a Falta de União

Encerrada a operação, o que se viu foi um verdadeiro espetáculo de desinformação e manipulação. Parte da imprensa, distante do chão da favela, sem qualquer vivência operacional, prefere o conforto do ar-condicionado ao risco do terreno. São analistas de gabinete, comentaristas que jamais sentiram o cheiro da pólvora ou ouviram o zumbido de um disparo, mas que se julgam aptos a “julgar” quem enfrentou o crime de frente.

É revoltante assistir jornalistas de São Paulo opinando sobre uma realidade que nunca viveram, transformando a dor e o sacrifício dos nossos homens em pauta sensacionalista. O julgamento é fácil quando se está sentado no sofá, café na mão, biscoito na boca, e nenhuma bala passando por perto.

E, para coroar, em plena COP internacional, o Presidente da República anuncia investigações e promete “culpados” — em vez de oferecer apoio institucional e cooperação federativa. O discurso soa mais como ameaça política do que busca por soluções, especialmente em um cenário pré-eleitoral.

A verdade nua e crua é que a segurança pública não é prioridade política, é apenas palanque. A cada quatro anos, o tema volta à pauta, e depois é engavetado. Enquanto isso, o crime se reorganiza, e o ciclo recomeça. O “vazio de poder” deixado após operações desse tipo é rapidamente ocupado — e um novo líder já surge no Comando Vermelho, retomando o domínio e aguardando o momento de reagir.


4. Minha Palavra – O Chamado à Verdadeira União

Como profissional de segurança, instrutor e cidadão, afirmo com convicção: nenhum Estado vencerá o crime sozinho.O enfrentamento só será eficaz quando houver integração real entre as forças estaduais, federais e municipais, com investimentos sérios, continuidade nos programas de inteligência e — principalmente — vontade política de mudar o cenário.

Não se combate o crime com discursos, mas com ações coordenadas, preparo técnico e respeito aos operadores que diariamente colocam a vida em risco por um país que, muitas vezes, não os valoriza.

Enquanto houver interesse político acima do interesse público, estaremos apenas enxugando gelo.A hora é de união, de planejamento conjunto, de investimento em treinamento e estrutura — e, acima de tudo, de respeito àqueles que estão no terreno.


GM Ribeiro

Instrutor de Técnicas Operacionais | Fundador do GAOp | Coordenador RTT – Ribeiro Tactical Training

 
 
 
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